A cetamina vem ganhando espaço na psiquiatria como uma intervenção de ação rápida, especialmente em quadros que não apresentaram resposta satisfatória aos tratamentos convencionais. Estudos clínicos e revisões científicas demonstram seu potencial para tratar diferentes condições psiquiátricas, com evidências de efeitos no tratamento clínico de depressão, ansiedade, TOC, estresse e burnout.
Fora do ambiente médico, a cetamina possui um histórico de uso recreativo e indevido. Essa reputação contribuiu para o estigma em torno da cetamina e reforçou a necessidade de cautela, regulamentação e critérios rigorosos para sua utilização terapêutica.
Neste artigo, você vai entender o que a ciência diz sobre o risco de dependência da cetamina, quais são as diferenças entre o uso terapêutico e o uso recreativo ou indevido, como a segurança é avaliada nos protocolos clínicos e, afinal, a cetamina vicia?
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Uso de cetamina pode levar à dependência?
A cetamina possui potencial dependência quando usado incorretamente, mas isso não significa que o seu uso leve necessariamente ao vício. O risco de dependência está relacionado a fatores como dose, frequência, contexto do uso e ausência de acompanhamento médico, sendo mais documentado em situações de uso recreativo, repetitivo ou não supervisionado.
Uma pesquisa recente, realizada pelo Cambridge University Press, avaliou estudos clínicos sobre cetamina no tratamento de transtornos do humor, encontrou pouca evidência de fissura, aumento progressivo das doses ou dependência quando o tratamento foi realizado em ambientes clínicos controlados e com monitoramento adequado.
Por isso, ao discutir o potencial de dependência da cetamina, é fundamental diferenciar o uso terapêutico estruturado do uso recreativo ou indiscriminado.
Uso terapêutico e uso recreativo de cetamina não são a mesma coisa
| Uso terapêutico | Uso recreativo e indevido | |
| Finalidade | Tratamento de uma condição clínica, a partir de indicação profissional. | Busca dos efeitos psicoativos ou dissociativos da substância. |
| Dose | Controlada e definida de acordo com o protocolo e as necessidades do paciente. | Pode variar e não há garantia de controle da quantidade utilizada. |
| Frequência | Planejada e reavaliada ao longo do tratamento. | Determinada pelo próprio usuário e pode se tornar repetitiva ou crescente. |
| Ambiente | Contexto clínico preparado para administração e acompanhamento. | Ambiente não controlado. |
| Avaliação prévia | Inclui análise do histórico clínico, condições de saúde e fatores de risco. | Geralmente inexistente. |
| Supervisão profissional | Presença de equipe capacitada para acompanhar a administração e intervir quando necessário. | Ausente. |
| Monitoramento | Resposta terapêutica e possíveis efeitos adversos são acompanhados ao longo do tratamento. | Não há monitoramento clínico estruturado. |
O que os estudos mostram sobre o risco de dependência no uso terapêutico?
As evidências disponíveis até o momento indicam que o risco de dependência é baixo quando a cetamina é utilizada dentro de protocolos clínicos controlados.
Uma revisão sistemática* que reuniu 16 estudos e 2.174 pacientes identificou apenas quatro casos com sinais claros de tolerância ao efeito antidepressivo ou dependência, enquanto uma revisão mais recente**, com 32 estudos e acompanhamentos que chegaram a nove anos, não encontrou casos documentados de dependência iatrogênica, comportamento de busca pela substância ou síndrome de abstinência durante tratamentos monitorados. É justamente por isso que a segurança depende de triagem adequada, controle de dose e frequência, supervisão profissional e acompanhamento contínuo.
No Brasil, essa cautela também aparece na regulamentação: a Anvisa classifica cetamina como substância psicotrópica da Lista B1 e determina que medicamentos contendo essas substâncias sejam dispensados e utilizados em estabelecimentos de saúde. Portanto, falar em segurança no uso terapêutico não significa afirmar ausência absoluta de risco, mas reconhecer que protocolos estruturados existem justamente para reduzir, identificar e manejar esses riscos.

Como funciona o protocolo de tratamento na Luvia?
Na Luvia, o tratamento com cetamina é organizado em etapas que combinam avaliação, preparação, acompanhamento e integração, sempre com participação da equipe médica e terapêutica.
1. Pré-avaliação
O processo começa com um questionário on-line, analisado pelos profissionais da Luvia. Essa etapa inicial ajuda a identificar informações importantes sobre o histórico e o perfil de cada pessoa.
2. Avaliação personalizada
Após a pré-avaliação, é realizada uma consulta com a equipe médica e terapêutica para analisar histórico clínico, necessidades individuais, objetivos e possíveis indicações para o tratamento.
3. Sessão preparatória
Antes da primeira sessão com cetamina, o paciente participa de um encontro de preparação emocional e psicoeducação, conduzido pelo médico e pelo terapeuta. O objetivo é explicar o processo, alinhar expectativas e oferecer mais segurança para o início da jornada.
4. Sessões com cetamina e assistência terapêutica
As sessões duram, em média, de duas a três horas e acontecem em um ambiente preparado para proporcionar conforto e acolhimento. Durante todo o processo, o paciente é acompanhado por um terapeuta, e as informações relevantes da experiência podem ser utilizadas posteriormente na etapa de integração.
5. Integração
Após cada sessão, o paciente passa por um encontro com o terapeuta para elaborar a experiência, compreender os insights que surgiram e trabalhar formas de integrá-los à vida cotidiana.
Esse modelo estruturado permite que o tratamento vá além da administração da cetamina, reunindo diferentes etapas de cuidado que favorecem acompanhamento contínuo, individualização e maior controle sobre o processo terapêutico.
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É possível usar cetamina com segurança
Sim, desde que seu uso aconteça dentro de um contexto clínico adequado, com avaliação individualizada, indicação criteriosa e acompanhamento especializado. A cetamina não é isenta de riscos, mas protocolos estruturados permitem reduzir esses riscos por meio do controle de dose e frequência, monitoramento dos efeitos e reavaliação contínua da resposta ao tratamento.
Por isso, mais importante do que perguntar apenas se a cetamina vicia é entender em quais condições ela é utilizada. Quando há supervisão profissional, critérios de segurança e acompanhamento ao longo de toda a jornada, seu uso terapêutico pode ser realizado de forma responsável e baseada em evidências.
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Fontes:
*Ingrosso G, Cleare AJ, Juruena MF. Is there a risk of addiction to ketamine during the treatment of depression? A systematic review of available literature. Journal of Psychopharmacology, 2025.
** WASOLUA, T. et al. A Systematic Review of Long-term Safety Outcomes of Ketamine and Esketamine in Patients with Treatment-resistant Depression. 2026.